terça-feira, 6 de setembro de 2011

das ilhas cheias de distância à nova casa

por Danielle Duer, artista visual
Desde há muito que eu venho pensando sobre coisas que de um jeito meio vago eu chamo de sensações. Fora dos trópicos, os anos de estranhamento corporal e emocional  me serviram para isso. Os debates intermináveis sobre o estar deslocada, o não pertencer, o frio - aquele frio que nada arrefece, me serviram justamente para isso. Do Norte, como havia de ser, vim me embora, soletrando nos lábios ainda mudos um trecho ou outro de tudo outra vez. É como se aquela canção dissesse da minha condição. Queria esquecer o meu inglês e viver tudo outra vez: o amor, o humor das praças cheias de pessoas. Como alguns conterrâneos que por lá ficaram, eu costumava acreditar que nos trópicos a vida estava sempre a mil. Eu alimentava essa fantasia. Ela contrastava com o rame-rame opaco e still das existências que se davam entre quatro paredes, nem sempre aquecidas, em terras estrangeiras. A alternativa de voltar para casa, parece clichê dizer, era uma miragem ensolarada nas manhãs mais cinzentas daquele inverno de tipo perene, o inverno do noroeste inglês. E quando as nuvens carregadas de chuva estacionavam sobre a minha rua, ali em Hulme, eu ficava a imaginar, como que romantizando o futuro já próximo... que voltaria pro céu incandescente do Nordeste, pra luz ao mesmo tempo ofuscante, opressiva e necessária, sem a qual os meus dias nunca foram de fato dias e por isso as minhas noites nunca foram de fato noites. Voltaria pra rede avarandada - armada no quarto e na sala, pro inesperado das noites regadas a movimento e improviso. Voltaria pra um lugar onde o tato haveria de estar sempre presente, onde as pessoas não só apertariam as mãos umas das outras mas também se abraçariam. Era assim que eu me reconhecia: no suor do próprio corpo, e no improviso das horas. Voltaria, sobretudo, para a experiência de uma língua. E a língua, algo tão grande e possante, eu nem ousaria definir. O que sabia, e isso muito bem, era que a maestria de uma outra não dava conta daquilo que havia de mais visceral na minha. Depois de oito anos, tinha que arrumar as malas. A viagem da volta. Não sabia, contudo, se a 'casa' ainda existia. O que eu sabia era que o retorno de retorno talvez nada tivesse. De fato, o retorno haveria de ser uma nova chegada. Aqui também eu encontraria um mundo alheio. Aqui também eu seria um tanto, embora nem tanto, estrangeira. E por isso os meus primeiros meses assim transcorreriam: na consciência da solidão e do anonimato de quem acaba de chegar, na consciência de que o processo de se tornar uma pessoa, no sentido mais sociológico da expressão, requer uma espécie de tempo que não se mede nem em dias nem em semanas. Tanto lá quanto cá, seria entre aqueles que um dia vieram de outros cantos que eu me encontraria, absorta entre o estranho e o familiar. Quase sempre mais sensíveis às sutilezas e aos percalços da migração, em busca deles, sem me dar conta, eu acabei indo... Constituimos essa categoria de gente que fica a testar constantemente as circunstâncias de sua própria existência, pondo à prova as nossas percepções: essa coisa que, no movimento entre espaço, tempo e emoções, dificilmente se confirma, quase sempre se transforma...



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